Bem-vindos!

Sejam bem-vindos! Este blog é uma tentativa de exercitar a insanidade de modo construtivo ou de destruir convenções via sanidade. Tanto faz. Caso você se pergunte sobre a minha seriedade aqui, explico com um trecho do Principia Discordia:

"- Você fala realmente sério, ou o quê?
- Algumas vezes eu trato o humor seriamente. Algumas vezes eu trato a seriedade humoristicamente. De qualquer forma, é irrelevante.
- Talvez você só seja maluco.
- Verdade! Mas não rejeite estes ensinamentos como falsos só porque eu sou maluco. A razão pela qual eu sou maluco é porque eles são verdadeiros."

Namastê!

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Efeito dominó

Brincadeira de criança,
como é bom, como é bom.
Guardo ainda na lembrança,
como é bom, como é bom.
Paz, amor e esperança,
como é bom, como é bom.
Bom é ser feliz com Molejão.

Grupo Molejo

Seres deste e dos demais mundos, voltei. E trago mais um “causo” do ônibus. Esta é a história de como me ferrei dando ouvidos a Anderson Leonardo (talvez, por afinidade óbvia) e levei gente comigo. 
          Em uma tarde chuvosa, ali por volta de 2007, eu retornava à minha cidade no costumeiro pão de forma com rodas. Você chama de ônibus. Naquela hora e meia de sacolejante viagem em pé, minha amiga Ana propunha assuntos amenos, em vão. Então resolvi me entreter de outras formas, procurando aqui e ali. Bem antes daquela puxa-saquenta comemoração de gol estilo “João Sorrisão”, decidi brincar com a barra horizontal fixa no teto do ônibus, pendulando o corpo pra trás (solto a barra) e pra frente (pego a barra). Meu gosto por esportes radicais me impeliu a continuar mesmo com o ônibus em movimento pela estrada queijo-suiçenta. Estou muito neologístico hoje.
         Crianças se distraem com muito pouco; e a viagem ficou quase agradável. Pego a barra. Solto a barra. Pego a barra. Solto a barra. Buraco. Ônibus sacoleja. Pega a barra, pega a barra, pega a barra!! Como o peixe escapando nervoso entre os dedos de Gollum em As Duas Torres, a barra me fugia enquanto o corpo caía pra trás, ao som daquela voz interior que dura uma fração de segundo, uma janela de torpor no meio do caos. “Eu não acredito que tô caindo... caindo no ônibus... cheio de gente... Não! Eu não vou cair! Que desaforo!”
Orgulho renovado, meu corpo inteiro acordou. Lutando pela vida, cada parte mergulhou na tarefa de impedir a queda de todo o conjunto. Não pisque, leitor(a), porque tudo durou um segundo. A mão direita tentou achar uma barra vertical e esbofeteou a cara da Ana. Esbofeteou, enfiou o dedo no nariz, no olho, não sei; foi tudo muito rápido e melequento. O pé direito buscou apoio atrás e encontrou uma sinfonia de socks e crashs que faria inveja a cada antigo Batman.
E assim teve um prejuízo imenso quem resolveu deixar bem atrás de mim suas várias sacolas de supermercado. Nem imagino quantos ovos, potes de iogurte e caixas de leite meu 44 quebrou. Mas os sons sugeriram um novo recorde. Em um feito que, por si só, valeria um filme, meu pé esquerdo pisou em falso (pois eu estava de costas praquela porta do meio) e só encontrou apoio num degrau abaixo. Sem sustento, meu joelho girou pra esquerda e espremeu contra o vidro a cabeça da moça que dormia em paz no primeiro degrau.
A mão esquerda tateou o ar sem apoios pra segurar e rostos pra bater, até encontrar uma barra vertical. Assim, um segundo após o buraco na estrada, lá estava eu, olhos fechados, mais ou menos de pé (tombado pra trás), agarrado à barra com a fúria dos que não se rendem. Mesmo morrendo de vergonha, lembro que senti orgulho do meu esforço. Um cruel silêncio imperou no longo segundo seguinte.
Quando criança faz coisa errada, deixa ombros encolhidos e olhos fechados até as coisas se acalmarem. Só então ela se aventura a contemplar o estrago. E minha primeira visão foi uma mão estendida pra mim. Mesmo em silêncio, o sujeito foi tão enérgico e rápido que logo me senti acolhido, protegido. “Você matou minha filha!!!”; e lá se vai minha ilusão de ser importante. “Tô bem, papai...”, disse uma voz abafada debaixo do meu joelho.
A viagem seguiu como começou (exceto pelas mãos firmes na barra, o pai checando os dentes da filha e Ana tentando um meio-termo entre a dor, a vergonha alheia e a vontade quase incontrolável de rir). Sabe aquelas coisas de filme que a gente sempre quis um contexto legal pra dizer, tipo “siga aquele taxi” ou “Luke, eu sou seu pai”? Aquele seria o momento perfeito pra um “Estão olhando o quê??”

sábado, 30 de abril de 2011

O dia em que quase me afoguei no chuveiro



Numa época em que tantos se acham ou querem ser especiais, um grande clichê é “tem coisa que só acontece comigo”. Contudo, somos mais parecidos uns com os outros do que imaginamos. Tantas vezes ouvi o clichê acompanhado por histórias essencialmente iguais, mas consideradas irrepetíveis por cada inocente narrador. Afinal, quantos tiveram o pneu do carro furado quando atrasados? Quantos mancharam a camisa na hora de sair? Quantos quase se afogaram no chuveiro?
 Um dia desses, eu tentava esquecer o cansaço em um relaxante banho quente. O plano funcionou, e logo eu estava mergulhado em pensamentos sobre nanotecnologia aplicada a cerimônias religiosas. À dada altura, estava tão relaxado e feliz com meus progressos que me espreguicei. Estendi os braços e bocejei sem pudor, como aqueles ursos de desenho animado que acordam da hibernação.
Quase morri. No movimento natural de alongar todo o corpo, estendi o pescoço e olhei pra cima com a boca aberta do bocejo. E o chuveiro me despejou toda a água do Ganges traquéia abaixo. Eu não conseguiria tanto se fosse um daqueles concursos de beber refri valendo um carro.
No clímax do desespero, cabe uma digressão. Quando criança, quase me afoguei três vezes: duas em piscinas e uma num ribeirão. Na segunda vez em piscina, tive câimbra nos dois braços ao mesmo tempo e cheguei à borda só batendo pernas. Anos mais tarde, isso justificou minha simpatia pelo Roy, da Família Dinossauro. No ribeirão, eu já estava arrebentado e quase desmaiado antes do quase-afogamento começar. Parte da margem desmoronou e quiquei barranco abaixo até a água, como o Homer naquele episódio em que cai de skate na Garganta de Springfield. “Bart, o Destemido” é o nome do episódio. No meu caso, não há adjetivos gloriosos pra quem é içado da correnteza pela cueca. Assim, sei o que é passar aperto e vergonha com água.
Com tanto conhecimento de causa, logo concluí que a situação era séria (algumas vezes, meu chuveiro trata a seriedade humoristicamente. Algumas vezes, ele trata o humor seriamente. De qualquer forma, eu não conseguia respirar e tampouco gritar por ajuda). Além disso, é típico já estar com pouco ar no início do bocejo. Não bastasse a diversão, eu estava sozinho em casa. Portanto, sabia que tinha pouco tempo.
Deixemos a narrativa detalhada e dramática sobre a rápida queda das minhas funções vitais. A experiência subjetiva foi mais legal. Mentira. Foi uma bad trip, como assistir ao Faustão entrevistando ex-BBBs. É verdade o que dizem sobre toda a vida passar diante dos olhos, num misto de avaliação rigorosa e esforço desesperado pra aproveitar o resto. Na aflição, vários outros pensamentos também vieram: “Eu me recuso a morrer afogado no chuveiro! Ainda mais pelado!” Assim descobri que a perspectiva de ser visto nu pela família inteira dá uma enorme motivação pra lutar. Afogar no chuveiro com traje esporte fino seria mais elegante. Eu não estava mesmo vestido pra ocasião. “Calma: No meu lugar, o que MacGyver faria?” Costumo usar esse recurso quando diante de problemas concretos difíceis. Quando são abstratos, penso em Fox Mulder. “Se existir mesmo um ‘outro lado’ e me perguntarem lá sobre como morri, terei de mentir...” Sem sacanagem, eu pensei. Já imaginou sofrer bullying no além-túmulo por conta disso? Se bem que, dependendo do meu círculo de convivências por lá, não seria ruim conhecer o humor provavelmente refinado de Chaplin, Newton, Émilie du Châtelet, Machado de Assis, Da Vinci... Em compensação, eu poderia aguentar séculos de zoação implacável nas mãos de Ronald Golias, Dercy Gonçalves, Ed Wood, Alborghetti... Nada mais derrotista que o último consolo que me veio: Pelo menos aparecerei no Darwin Awards...”
Após muito esforço (mesmo), expeli a água intrusa e o ar começou a entrar. Foi como quando retirei aqueles sapatos 36 após uma manhã inteira de trabalho (eu já calçava 44... É história pra outro dia). Demorei uns 10 minutos pra realmente me recuperar, incluindo parar a tosse e respirar com naturalidade. Como a vivência do tempo é subjetiva, pareceram horas.
Esta narrativa é um convite, caríssimo leitor, pra que narre seu(s) quase-afogamento(s) no chuveiro. Fundemos uma associação. Façamos grupos de apoio. Criemos um manual pra emergências com páginas plastificadas (senão acontecerá como nas saídas de emergência nas janelas dos ônibus antigos, quando os vários procedimentos – não era apenas “pegue o martelo e use no vidro” – vinham descritos nos lacres de segurança e a primeira instrução era “quebre o lacre”). A demanda existe e precisamos nos mobilizar. Como já escrevi aqui, objetos “inanimados” são perigosos. E, no topo da minha lista, Pedro, o chuveiro.

domingo, 13 de março de 2011

REPORTAGEM ESPECIAL - C.I. foi ao show de Tarja Turunen em São Paulo (12/03/11)


Esmagador. Essa é uma das palavras que define razoavelmente o show de Tarja Turunen, soprano finlandesa e ex-vocalista do Nightwish, ontem em Sampa. Sua performance foi intensa, consistente e inspirada. Como ela já mencionou em diversas oportunidades, o público brasileiro é o mais "louco" (sic) e ela respondeu à altura e de modo emocionado ao frenesi do HSBC Brasil lotado. Ao contrário da postura um pouco apática vista em alguns shows desta turnê (compreensível em função do cansaço de apresentações consecutivas em países diferentes), ontem ela estava solta e com ótima presença de palco, vibrou muito com a massa, conversou várias vezes em português e chegou a demonstrar surpresa e decorrente emoção pelo público cantar em uníssono todas as músicas do set. Não é difícil entender a surpresa se compararmos com os videos dos demais shows da turnê, quando todo mundo grita e quase ninguém canta. Ontem todos participamos de um coral sincronizado, robusto e constante. Fico arrepiado quando me lembro.
Além do mais, aproveitando o que disse o Zé João em sua entrevista aqui no blog, a questionável postura do Nightwish ao demitir a Tarja e ao contratar uma vocalista com um timbre de voz completamente diferente gerou uma lacuna definitiva. Assim, o mais próximo que temos de ver e ouvir ao vivo o "velho Nightwish executando seus clássicos" é com a Tarja atual. E ontem nós vimos e ouvimos Wishmaster, Higher Than Hope, Stargazers...
Outro destaque foi Mike Terrana, o batera. O cara é uma figura e levantou o público, especialmente quando quebrou tudo com um solo cabuloso (ops!) em cima da famosa Abertura de Guilherme Tell, de Rossini.
Claro que há ressalvas. Falta de educação e mal-entendidos marcaram a fila. O set list não foi aquele dos meus sonhos; eu faria, pelo menos, duas ou três mudanças (sem contar que considero ainda faltar um certo amadurecimento na maioria das composições). O adjetivo "esmagador", que inicia o texto, descreve muito bem a situação perto do palco. Faltou discernimento de parte do público sobre o papel de uma banda de abertura; e os simpáticos membros da Ecliptyka pagaram o preço da impaciência de alguns.


Ainda bem que guardavam meu lugar na fila quando eu ia ao banheiro...

De qualquer modo, foi uma experiência única. Única. A relação que se estabeleceu entre a vibração louca (mas coesa) do público e a postura intensa da Tarja fez do show uma experiência transpessoal. Aquilo ali virou um organismo enorme, pulsante e docemente insano. Por tudo isso,  posso dizer com tranquilidade que foi o melhor show da minha vida.
As duas fotos acima são minhas. Pensei em postar outras abaixo pra ilustrar, mas minha máquina não compete com as profissionais, de modo que preferi as excepcionais fotos do iG Cultura. Suponho que não há problema em postá-las se eu citar a fonte (Caso queira ver todas, clique aqui). Detalhe: através de várias pistas, identifiquei e assinalei minha mão na primeira foto abaixo (clique pra ampliar).














quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O inconfundível valor da amizade

Inaugurando mais uma seção do blog, "causos" reunirá fatos que presenciei ou protagonizei. Os nomes serão (quase) sempre fictícios, pra preservar os envolvidos, mas as histórias serão bem reais. Comecemos...

Eu tive um amigo de infância chamado Aloísio. Brincávamos muito juntos, zoávamos e ele até presenciou um dos meus quatro quase-afogamentos sem mover uma palha. Apesar dessa mágoa, era um ótimo amigo.
Passados os anos, cada um foi pro seu lado. Cresci, cursei o primeiro grau, o segundo, entrei pra faculdade e qual não foi minha surpresa ao reencontrar Aloísio no mesmo ônibus pra universidade!
"Aloísio, quanto tempo! Como vai a vida??" Com aquele sorriso tímido que sempre o acompanhou na infância, ele narrou, de modo resumido, diversos desdobramentos de sua vida que eu jamais preveria, baseado em meu conhecimento prévio sobre ele. Foi um ótimo evento pra mim. Uma parte da infância quase esquecida voltou.
E assim foi ao longo dos semestres seguintes. Naquele horário bizarro das 6h10, pegávamos o ônibus e eu sempre o recebia com um sonoro "Aloísio, meu velho!" e um fraterno aperto de mão. Acabei descobrindo uma amiga minha como irmã dele, o que me mostrou que o mundo era ainda menor do que eu imaginara.
Assim, aquela hora diária de trajeto pra universidade era recheada de narrativas da infância, lembranças engraçadas etc., eu narrando e ele concordando com o onipresente sorriso tímido. Numa quarta-feira, passados três anos do reencontro, pegamos o busão de sempre e ele se sentou ao meu lado. Lá ia eu falar as aleatoriedades de sempre quando ele, usando suas prerrogativas de amigo tão antigo, me disse em tom sério e terrivelmente tímido: "Léo, precisamos conversar". A irmã dele, ao lado, mantinha um meio-sorriso tenso e enigmático. Aloísio continuou: "Meu nome é Frederico". "O quê?", retruquei, atribuindo minha dissonância cognitiva ao horário do ônibus. "Meu nome não é Aloísio; é Frederico". A timidez deixava Aloísio vermelho como gelatina de cereja. Interroguei a irmã com os olhos. Ao seu meio-sorriso somava-se agora um olhar piedoso. "Meu nome não é Aloísio; é Frederico", repetia Aloísio com um riso nervoso, como um adolescente gaguejando em seu primeiro flerte.
Dada a insistência dos irmãos naquele absurdo, exigi explicações, vi a carteira de identidade, pedi que jurassem por alguma divindade.
Não era brincadeira. Aloísio se chamava Frederico. Sempre se chamou; não era uma mudança de nome. "Mas como seria possível?", me interroguei, mergulhado na dissonância. "O nome Aloísio era uma falsa memória minha? O pai se chamava Frederico e, num complexo de Édipo mal-resolvido, ele se recusou a adotar o nome do pai? Ou era uma conspiração dos Iluminatti?"


A explicação de Aloísio, digo, de Frederico superou minhas melhores expectativas. Foi mais ou menos assim (vermelho como a calça de um dos Restart):
"Lembra quando a gente se viu aqui no ônibus três anos atrás? Você me chamou de Aloísio com tanta convicção que eu fiquei com vergonha de desmentir e deixei... Na verdade, eu nem sei quem é Aloísio. E eu nem sabia quem era você! Eu te conheci naquele dia!" Pausa pra assimilar essa reviravolta shakespeariana... Voltando, "Desde então, em cada dia nesses três anos, eu penso em te contar que não sou seu amigo de infância... Cada dia eu entrava neste ônibus resolvido a contar, mas nunca conseguia... Desculpa se só consegui fazer isso hoje..."
O olhar da irmã apoiava piedosamente a inacreditável timidez de Aloísio-Frederico. Poucas vezes na vida uma notícia me chocou tanto. Quantas noites de sono ele perdeu, atormentado, acumulando forças pra me enfrentar na manhã seguinte? Ainda hoje eu imagino a angústia dele, concordando dia a dia com as minhas memórias de infância... E como era possível que Frederico adulto se parecesse tanto com Aloísio criança? Semanas depois, como numa coincidência que levaria platéias esotéricas ao frenesi, eu encontrei o verdadeiro Aloísio na rua. Procurei me certificar. Era o próprio. Como saldo final, duas aterradoras verdades: Frederico se parece mais com o Aloísio-criança que o próprio Aloísio. E o apelido de Frederico na nossa turma do busão é e sempre será Aloísio.